
Terreiro do Pinho: conheça a história do mais antigo terreiro Jeje Danxomé do Brasil
Material escrito pelo ahé Caio Victorino e publicado com autorização da Sra. Ogorensì Maane Nascimento, matriarca do Terreiro do Pinho.
Fundado em 25 de dezembro de 1658, o Terreiro do Pinho (Hùnkpámè Danxomé) possui uma história profundamente entrelaçada às lutas pela preservação da memória, da identidade e das tradições de matriz africana. Reunindo famílias oriundas de diferentes grupos étnicos gbe-falantes do antigo Reino do Daomé, o terreiro está situado no município de Maragogipe, no Recôncavo Baiano, e é reconhecido como o mais longevo templo de culto aos voduns fundado no Brasil.
Embora sua primazia não possa ser comprovada documentalmente, a memória transmitida oralmente faz com que o Terreiro do Pinho seja frequentemente considerado um dos berços do culto aos voduns em território brasileiro. Tendo como padroeiro a divindade Jogorobossu, o templo integra a Nação Jeje e pertence à tradição Daomé.
Entre as suas principais características, destaca-se uma particularidade que o diferencia de outros templos da Nação Jeje: desde a fundação da casa, o sacerdócio permanece vinculado a uma mesma linhagem sanguínea. Essa continuidade familiar constitui um dos elementos fundamentais para a preservação dos conhecimentos, dos fundamentos religiosos e das práticas que estruturam a vida do terreiro.

Cercado por profundo respeito aos seus segredos e fundamentos religiosos, o Pinho mantém publicamente restrito o conhecimento sobre diversos aspectos de sua história e de sua organização ritual. Entre os elementos que podem ser conhecidos, destaca-se a presença de cânticos entoados em três idiomas gbe - fongbe, ajagbe e ewegbe, evidenciando a permanência de diferentes referências linguísticas associadas às tradições de seus ancestrais.
O terreiro possui um calendário festivo específico, no qual se articulam práticas religiosas, conhecimentos tradicionais e formas de transmissão da memória. Nesse sentido, saberes preservados ao longo de gerações continuam a desempenhar papel fundamental na manutenção da casa e na sustentação de seus filhos, demonstrando a vitalidade de conhecimentos que, embora oriundos de outros tempos, permanecem presentes no cotidiano do terreiro. É importante destacar, ainda, que o Pinho é reconhecido como quilombo mapeado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sob o código nº 2920601. Mais do que uma classificação territorial, contudo, a dimensão quilombola constitui parte fundamental de sua trajetória histórica, compreendendo-se o terreiro também como espaço de resistência e de permanência de famílias que, desde sua fundação, mantêm vínculos com a casa e contribuem para a continuidade de suas tradições.
Ao longo de seus quase 368 anos de existência, destacam-se três grandes sacerdotisas na trajetória do terreiro: Mãe Arcanja de Gbadé, Mãe Isaulina e Mãe Maria. As três são reconhecidas como ancestrais de grande importância para a história e para a continuidade da casa. Pertencentes à mesma linhagem sanguínea da Sra. Ogorensì Maane, atual responsável por preservar e levar adiante o legado tradicional, religioso e familiar do Terreiro do Pinho, essas sacerdotisas integram uma cadeia de transmissão que conecta diferentes gerações e contribui para a permanência dos fundamentos da casa até os dias atuais.

Ogorensì Maane Nascimento é filha única de Mãe Maria do Carmo, antiga sacerdotisa do Pinho, que faleceu em 2008 e passou a integrar o conjunto dos antepassados da casa. Sua partida foi profundamente significativa para toda a comunidade, sobretudo, porque Mãe Maria representava uma das principais referências na continuidade da tradição religiosa e familiar do terreiro. Assim como sua mãe, que nasceu e foi criada no Pinho, Ogorensì Maane possui, desde o nascimento, uma trajetória profundamente vinculada à casa. Segundo a memória preservada pela comunidade, essa relação também se manifestava no âmbito religioso: quando ainda criança, Jogorobossu, em transe em Mãe Maria, cuidava e embalava a menina, estabelecendo desde cedo um vínculo simbólico entre a futura sacerdotisa, sua linhagem e a divindade que ocupa lugar central na tradição do terreiro.
Com o falecimento de Mãe Maria, entretanto, Ogorensì Maane ainda era menor de idade e, portanto, precisou aguardar o momento adequado para assumir a posição que lhe era destinada dentro da casa. Esse processo foi atravessado por um acordo sucessório que resultou na ocupação indevida da posição por uma senhora, falecida, que deveria zelar pela casa até a maioridade de Maane. O episódio provocou um período de interrupção das atividades do terreiro e contribuiu para o afastamento de parte significativa dos mais velhos da comunidade, que permaneceram à espera do retorno daquela que, segundo a memória e a tradição da casa, seria a legítima continuadora da linhagem sacerdotal. Dessa maneira, a trajetória de Ogorensì Maane está diretamente relacionada não apenas à continuidade familiar do sacerdócio, mas também ao processo de resistência e reconstrução da vida religiosa do Terreiro do Pinho.
Mãe Isaulina, por vez, também antecessora da Ogorensì Maane, mãe de cinco filhos e de uma única filha, foi quem reativou o terreiro após um longo hiato devido a um episódio muito conhecido envolvendo uma jaca e um outro terreiro de Jeje do culto Mahi. Com muita garra, assim como hoje pode ser visto na atual responsável pela casa, lutou para recuperar atabaques que foram apreendidos indevidamente e levados para a Reserva Técnica de um Museu, como também contra jeremeiras que se proliferaram e por pouco não comprometeram o espaço físico da casa. Ela iniciou filhos de santo na casa, teve Ogãs (entre os quais podemos destacar Ogan Isaltino, Ogan Osvaldo e Ogan Luíz da Guia ), e uma série de pessoas que lhe admiravam. As celebrações conduzidas por ela são lembradas até hoje no Terreiro do Pinho e como motivo de muito orgulho, pois eram feitas com fifó (lamparina feita com lata e pavio de algodão que, em seguida, deveria ser mergulhado no querosene) e velas devido a falta de energia elétrica.

A história do Terreiro do Pinho, portanto, não se encerra nos períodos de interrupção ou nas dificuldades enfrentadas ao longo de sua existência. Ao contrário, sua trajetória evidencia a capacidade de uma comunidade de preservar, reconstruir e transmitir seus saberes, mesmo diante das adversidades que atravessaram diferentes gerações. A casa permanece viva por meio da memória de suas ancestrais, dos vínculos familiares, dos fundamentos religiosos e dos conhecimentos que continuam sendo guardados e transmitidos por aqueles que reconhecem no Pinho um espaço de pertencimento, resistência e continuidade. É nesse sentido que o terreiro se encontra, atualmente, em processo de reorganização e estruturação para sua reabertura após aproximadamente 17 anos de hitado, reafirmando a continuidade de uma história iniciada há quase quatro séculos. Esse movimento não representa apenas a retomada das atividades de uma casa religiosa, mas a renovação de um legado construído por sucessivas gerações de mulheres e homens que dedicaram suas vidas à preservação de seus fundamentos. Reabrir o Pinho significa, assim, restabelecer um espaço de culto, de memória, de transmissão de conhecimentos e de fortalecimento dos laços que constituem sua comunidade.
À frente desse processo, encontra-se Ogorensì Maane, herdeira de uma linhagem que tem em Mãe Arcanja de Gbadé, Mãe Isaulina e Mãe Maria, algumas de suas principais ancestrais. Sua trajetória, desde o nascimento vinculada ao terreiro, representa a continuidade de uma tradição que não se limita à transmissão de um cargo ou de uma posição sacerdotal, mas envolve a responsabilidade de guardar conhecimentos, fundamentos, histórias e memórias acumulados ao longo de gerações.
Em Ogorensì Maane, a casa reconhece uma fonte de sabedoria e conhecimento capaz de estabelecer uma ponte entre os ensinamentos de suas ancestrais e os caminhos que se apresentam para o futuro. Dessa forma, o Terreiro do Pinho segue vivo. Sua existência não depende apenas da permanência de suas estruturas físicas, mas da capacidade de sua comunidade de manter acesa a memória daqueles que vieram antes e de transformar essa memória em força para o presente e em fundamento para o futuro.
Ao preparar-se para reabrir suas portas, a casa mantém o compromisso com o legado de suas ancestrais, com a tradição Daomé e com a continuidade dos saberes que fizeram do Pinho um lugar de resistência, pertencimento e preservação da memória africana no Brasil. A reabertura, portanto, não representa um recomeço, mas a continuidade de uma história que, apesar dos hiatos e das adversidades, jamais deixou de ser transmitida.






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